Analisando o Foro de São Paulo: níveis de ceticismo possíveis e o cenário Dilma x Marina Silva

O Foro de São Paulo tem sido tema de discussão há algum tempo, e desde que foi denunciado pela primeira vez pelo dr. José Carlos Graça Wagner, por volta de 1995, e posteriormente propagado por Olavo de Carvalho, o conhecimento das atividades desta organização se tornou fundamental para o entendimento da política latino-americana. Hoje, este entendimento se faz mais necessário do que nunca. Para a introdução no assunto, recomendo o texto de Olavo de Carvalho:

http://www.olavodecarvalho.org/semana/0709digestoeconomico.html

Porém, a realidade é a de que a maioria da população sequer ouviu falar de tal coisa. Dos poucos que ouviram, mais poucos ainda dão a devida importância ao tema. A mídia tradicional (jornais, revistas e TV) praticamente não tocam no assunto. O debate disponível acerca do tema é quase que exclusivamente encontrado em blogs especializados de internet. Dentro desse debate “internetês”, consegui mapear os níveis de ceticismo das pessoas com relação a entidade Foro de São Paulo e seu papel concreto no jeito de se fazer política na América Latina. Numa escala de 1 a 5, eis que defino os seguintes níveis:

NÍVEL 1: Eu não acredito na existência do Foro de São Paulo.

NÍVEL 2: O Foro de São Paulo existe, mas é apenas uma reunião de partidos de esquerda para se discutir ideias, e não tem peso nenhum nas atividades políticas de qualquer país.

NÍVEL 3: O Foro de São Paulo é uma entidade que influencia as políticas dos partidos de esquerda latino-americanos pela via da uniformidade ideológica.

NÍVEL 4: O Foro de São Paulo, além da influência ideológica, possui mecanismos concretos e objetivos de ação para alterar em maior ou menor grau o curso das políticas dos países que ele abrange.

NÍVEL 5: O Foro de São Paulo é uma organização que detém todo o poder político e controla as ações da esquerda nos países que ele abrange, invariavelmente.

Com estes níveis definidos, temos que considerar logo de cara que os integrantes do nível 1 estão completamente alheios à realidade em que vivem, pois chegam a negar a existência do FSP. Estão em outro planeta, e não possuem a menor condição de compreender a realidade política que os cercam. Devem ser ignorados do debate político por não estarem no estágio de compreensão mínimo necessário para tal.

Os integrantes do nível 2, apesar de reconhecerem que o FSP existe, negam a sua importância e seu papel de fato. Nesse grupo está inclusa praticamente toda a mídia brasileira tradicional, que evita falar no assunto, e quando tem que falar, despista dizendo que é apenas uma “reunião para se discutir boas ideias”. Está aí incluso também, obviamente, todo o público que esta mídia influencia.

Os integrantes do nível 3 já estão bem informados sobre o assunto, porém são céticos com relação ao “poder” da entidade sobre a política real que se vê desenrolar nos países onde o FSP tem partidos filiados. Aqui estão inclusas as pessoas que dizem que a entidade não tem possibilidades de controlar o emaranhado complexo de acontecimentos e mudanças de cenário que ocorrem a todo momento. Também são céticos com relação ao cumprimento criterioso dos compromissos assinados pelos partidos membros.

Os integrantes no nível 4, também bem informados sobre o assunto, defendem a tese de que além da influência ideológica, a entidade Foro de São Paulo possui mecanismos de ação reais para mudar fatores importantes que garantam a unidade ideológica da América Latina. Essa influência se dá pela compactuação com a grande mídia nos diversos países, pelo controle de grupos revolucionários (MST e FARC, por exemplo), movimentos sociais e ONG’s de diversas finalidades. Neste nível estão as pessoas que acreditam que os pactos firmados pelos partidos no FSP serão cumpridos, por se tratar de um interesse que transcende os interesses nacionais dos países que a entidade abrange.

No nível 5, temos o que Luciano Ayan, em artigos recentes, descreve como “agencialistas”, que seriam pessoas da direita que, de antemão, já assumem a postura derrotista, dizendo que contra as tramas do Foro de São Paulo nada se pode fazer, por se tratar de um poder que está além das capacidades imediatas de uma reação organizada.


Pois muito bem.

Dentro da minha classificação de níveis, eu enquadraria Olavo de Carvalho no Nível 4, que é, acredito eu, a descrição que mais se aproxima do que ele tem dito nos últimos tempos sobre o FSP. No último hangout (clique aqui) em que Olavo participa, com Felipe Moura Brasil e organizado por Kim Kataguri, dá pra notar que ele leva bastante a sério a hipótese de uma influência mais efetiva da entidade internacional.

Já Luciano Ayan eu talvez enquadraria entre os Níveis 3 e 4 (ou 3,5, como ele mesmo se define). Vejamos um trecho do que ele escreve no seu último texto (clique aqui): 

O agencialismo, quando se torna implacável, consegue determinar tudo que ocorreu em reuniões a portas fechadas, mesmo sem ter participado delas (…). Ao invés de criar tais arquiteturas (que demandam sempre muita criatividade para argumentar por que os arquitetos agem assim), pode-se optar por alternativas mais parcimoniosas, como a Janela de Overton. Pela Janeta de Overton, é claro que podemos “puxar” a opinião pública em direção a uma ideia, um conjunto de ideias ou mesmo um partido ou vários deles. Neste caso, podemos levar as pessoas a “aceitar mais” a votação em partidos de diferentes matizes de esquerda. Assim como poderíamos fazê-lo para diferentes matizes de direita. Mas coordenar com esses partidos os resultados que eles obterão é algo muito mais complicado. Mais um motivo para eu optar por uma explicação mais parcimoniosa como o melhor uso da Janela de Overton pelos esquerdistas (do Foro de São Paulo), ao invés de dizer que “tudo foi planejado e controlado para atender aos desejos do Foro”.

Luciano nos atenta que é preciso parcimônia ao falar de Foro de São Paulo, e nos lembra que nem tudo já está decidido. A direita não pode simplesmente abaixar a cabeça e aceitar um fatídico destino inevitável, sem que haja nem ao menos evidências de tamanho controle e orquestramento das soberanias latino-americanas por quem quer que seja. Isto é claramente uma crítica aos integrantes do Nível 5. Luciano ainda diz que as esquerdas jamais trataram a direita como um inimigo invencível, e por isso agem com mais assertividade na maioria das vezes, o que concordo plenamente. Sobre isso, Olavo costuma dizer que a esquerda, quando atinge um grande poder, cria uma oposição fictícia, tão forte quanto ela ou até mais, para manter estimulada a militância na sua luta contra o “grande inimigo”.

Eu mesmo me incluo no nível 4. Acredito que o FSP está no meio termo entre um controle-total e uma organização ideológica. Neste nível, consigo fazer certas especulações, porém muitas delas sem provas substanciais, mas que ao mesmo tempo fazem bastante sentido. Neste ponto não sou tão pragmático quanto Luciano. Ele diz em seu texto: 

Dia desses fiz a pergunta a um deles: “Quem é o chefe do Foro de São Paulo?”. Ninguém conseguiu me apresentar esse chefe. Perguntei sobre as próximas ações do Foro daqui 3, 6, 9 e 12 meses, o que é o mínimo para quem conhece um projeto. Ninguém conseguiu me dizer. Ou seja, pela perspectiva agencialista muitos sabem dizer exatamente o que se falou nas reuniões fechadas do Foro, mas não conseguem dizer os próximos passos detalhados relacionados a este plano. Isso não é nem um pouco contraditório?

Realmente não temos meios de saber quais são os passos que irão seguir os líderes do Foro de São Paulo. É verdade que é difícil saber até mesmo quem é que manda na coisa toda. Se antes era sabido que o eixo dominante era Fidel-Lula-Chaves, agora com a morte de Chaves e o estado precário de Fidel, seria Lula o novo líder? Teria algum novo líder surgindo? Ainda não sabemos. Na verdade, é impossível acompanharmos de perto o que acontece. Obviamente haverá sempre um delay entre o acontecimento dos fatos e o conhecimento dos mesmos, a não ser que literalmente tenhamos informações sobre o que ocorre “entre portas fechadas”. Infelizmente temos que nos apegar ao que temos de informações. Quando sabemos de alguma coisa, é porque a coisa já aconteceu ou está acontecendo. Neste sentido, algumas questões levantadas pelo Nível 4 nem sempre estão associadas a tentativas de prever o futuro. As hipóteses devem estar condicionadas à experiência histórica e análise dos fatos já ocorridos para terem coerência, e devem ter o intuito de nos prepararmos para todos os cenários possíveis da guerra política, delineando estratégias para todos eles. No hangout entre Olavo e Felipe Moura, por exemplo, Olavo chega a levantar a hipótese de apoiar inteiramente Marina Silva, caso ela venha a se manifestar contra o FSP. É um cenário improvável, porém não impossível. 

Portanto, considero que o Nível 4 é o nível de ceticismo adequado para delinearmos as estratégias possíveis quando analisarmos a disputa eleitoral atual, entre Dilma e Marina Silva. No final das contas, toda a discussão se resume à uma pergunta crucial: 

Marina está ou não está ligada ao Foro de São Paulo? 

A tendência do Nível 3 é questionar esta ligação ao máximo e só delinear uma estratégia para este possível cenário caso surja alguma prova contundente. A tendência do Nível 4 é não esperar por provas definitivas, e já traçar uma estratégia para este possível cenário, baseada na experiência histórica e no conhecimento de como a entidade tem agido há mais de 20 anos. 

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um comentário

  1. […] novo blog, Política sem Filtro, fez um post interessantíssimo, criando uma escala de ceticismo em relação ao Foro de São […]

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