A dialética divina e a dialética dos homens

Não há como discordar completamente que o curso histórico das ações humanas seja regido por movimentos dialéticos. Gosto de imaginar que somos regidos pela dialética divina, na qual os agentes somos nós, dotados do livre-arbítrio, porém escravos do passar-do-tempo. Logo, a própria dialética divina, quando aplicada à nossa realidade, torna-se uma dialética “mundana”, enclausurada na dimensão do tempo, e todas as ações e reações, teses e antíteses seriam atualizações no agora de potencialidades que sempre existiram.

Se a totalidade dos agentes dentro desta dialética divina compreende todas as consciências humanas, é de bom senso dizer que a previsão dos movimentos dentro dela — as inumeráveis sínteses do confronto entre inumeráveis teses e antíteses — é uma tarefa inabarcável por qualquer conjunto desta totalidade, e muito menos por um indivíduo apenas. Ainda que todas as consciências se unissem para este único propósito, a condição de criação de uma onisciência coletiva deveria ser satisfeita de tal modo que todo agente individual partilhasse da plenitude deste novo ente onisciente, e nenhuma ação particular pudesse escapar do conhecimento geral e alterar inesperadamente o resultado da previsão. Em poucas palavras, tal empreendimento é ambicioso ao ponto de querer “imitar” a própria consciência de Deus, da qual não escapa uma única folha que cai.

O que me assusta é que vejo tal empreendimento sendo levado a sério no mundo moderno. Com o advento dos movimentos revolucionários, tendo o marco inicial na revolução francesa, houve também o inevitável surgimento de ideologias reformadoras, não só da política e do comportamento social, mas da própria natureza humana. De lá pra cá, não é difícil perceber um profundo desejo de uma onisciência a serviço das revoluções.

Não seria o próprio materialismo dialético de Marx uma tentativa, presunçosa na medida da sua simploriedade, de prever os movimentos dialéticos dentro de um curso histórico, reduzindo os inumeráveis agentes e suas inumeráveis categorias em apenas duas: o explorador e o explorado? Seria possível comprimir a complexidade da natureza humana e de suas ações, movidas por incontáveis tipos de interesses, necessidades, fetiches e obrigações, dentro de uma realidade em que o único fator determinante do curso histórico é o conflito entre estas duas classes possíveis? Obviamente, não.

Ainda que os movimentos revolucionários tenham evoluído seus métodos de categorizar e instigar as lutas de classes e ampliado o horizonte de possibilidades de um indivíduo qualquer pertencer a alguma classe pró ou contra a revolução, continua grotesca a pretensão de reduzir a realidade a esse leque de possibilidades, no qual todo e qualquer ser consciente esteja obrigatoriamente comprimido, em pensamento, palavras e ações, a tais delimitações. Neste sentido, o movimento revolucionário trabalha de forma a limitar toda a realidade à um propósito de luta de classes, fazendo com que a dialética do próprio movimento seja, de certa forma, previsível. As incontáveis e inevitáveis ações que não se enquadram na natureza da dialética revolucionária passam a ser reinterpretadas como se fossem, num exercício retórico de auto-engano permanente, que só pode ser garantido pela deformação sistemática das consciências individuais e da percepção da realidade.

Não é atoa que as revoluções sempre ambicionaram o controle total não só da economia, mas da vida particular das pessoas, nos seus mais íntimos detalhes. Surge então uma vigilância que, na medida do possível, visa o controle da consciência dos indivíduos. Por isso mesmo, todos os líderes revolucionários são psicopatas no sentido estritamente clínico do termo. São pessoas carismáticas e com grande apelo popular, porém sem nenhuma capacidade interna de ter afeição ou compaixão pelo próximo. São capazes de estimular a deformação das tradições e virtudes de sociedades inteiras, na ilusão de que, da destruição geral, surjam novas virtudes superiores, as quais ele próprio não consegue conceber, e na crença de que ele próprio sobreviva ao processo de destruição, configurando-se assim num caso de paralaxe cognitiva.

Tais líderes surgem naturalmente no caos revolucionário, que cria um ambiente propício para o psicopata sair da esfera anônima de sua existência e saltar para a liderança de massas, encabeçadas pelos histéricos, os tipos mais vulneráveis aos seus encantos. Daí prometem um mundo melhor, controlado e protegido contra as mazelas causadas pelos inimigos das classes oprimidas. Este controle que é exigido em nome da “proteção” nada mais é que a tentativa, ainda que precária, de se instaurar um saber do “todo” e de se ter acesso a tal consciência coletiva que, mesmo sendo um arremedo grotesco da onisciência divina, ainda sim termina por se tornar inquestionável e com o status de um ente divino.

Mesmo que surja no futuro uma tecnologia capaz de interligar de uma só vez todas as mentes humanas, ainda seria impossível se estabelecer uma convergência de vontades pessoais, que unisse num só propósito idealista o confronto dialético entre o rico e o pobre, o caridoso e o egoísta, o virtuoso e o medíocre, o esforçado e o preguiçoso, o estudioso e o ignorante, o crente e o descrente, o santo e o pecador.

O que falta ao mundo moderno é a compreensão básica (que se perdeu por aí nestes últimos dois séculos de revoluções) de que, Deus, Eterno e Onisciente, conhecedor de cada movimento no tabuleiro e que paira sobre a própria “prisão temporal” da dialética mundana, partilhou com nós há muito tempo o único ideal unificador de consciências possível, em forma de mandamento: “amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”.

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